12 de outubro de 2017

Eu não conheço nenhuma Riiiiiiiiiiiita




Há exatos três meses eu não desço gota alguma de álcool pela goela. Flavinho é o moleque magricela que ajuda o pai na esquina vendendo menta e há todo esse tempo eu não os encontrava.
Flavinho aproxima-se da mesa e me devolve o volume de Capitães de Areia.
- Fica, pode ficar. – Digo com um sinal de positivo nas mãos.
- Por causa da Rita?
- Quem é Rita?
- A Rita que te deu esse livro.
- Como tu sabes que eu ganhei?
- Porque tem uma dedicatória escrita. “Com todo o meu amor, Rita”.
- Quem é Rita, Flavinho?
- Tua namorada?
- Que namorada?
- Ex-namorada?
- Que ex-namorada?
- A Rita.
- Que Rita?
O moleque me mostra o livro. A dedicatória, escrita na contracapa.
- É, é um livro. Eu que te emprestei.
- Essa Rita. – Aponta pra dedicatória.
- Cadê? Isso é um livro.
- Aqui! Tá aqui! Escrito aquiiiiiiii, ó! – Esfrega o dedo em cima do nome: - R-I-T-A.
- Do que tu tá falando, pirralho?
- Seu arrombado, aqui, óóó.
- Olha a língua, filho da puta. Aqui onde?
- Vai se foder.
- Vai se foder tu.
Encho o copo de cerveja e viro em um gole. Aquela merda era ruim, trincava meus maxilares e o primeiro gole sempre arrepiava os pelos do braço mesmo depois de todo esse tempo. Era como andar bicicleta, mas você é meio desengonçado.
- Não sei quem é Rita.
- Toma o livro. – Empurrou-me.
- Não, tá tudo tranquilo, pode ficar com o livro. Ele agora é teu.
- O quê?? Não, ele é teu. A Rita que te deu.
- Moleque, se eu conhecesse alguma Rita na vida, certeza que ela me daria muitas coisas, menos um livro dedicado.
- Rárárárárárá.
O moleque me deu um tapinha malicioso no ombro, balançando o dedo como se tivesse captado uma piadinha sacana.
- Na verdade eu tava falando de outras coisas. – Cocei a testa. – Fica com ele, agora o presente é teu. Fica.
- Mas eu já li.
- Você vai reler um dia.
- E tu também. Toma. É da Rita.
- Mas eu lembro o que tá escrito aí dentro.
- Até o que a Rita escreveu?
- Pirralho, quem diabos é Rita?
- Não sei também. Tua namorada?
- Minha? – Gargalhei meio sem controle. – Eu sei o que tá escrito aí nessa história.
- Tudo de cabeça?
- De cabeça não. A gente nunca lembra de cabeça todas as coisas bacanas em um romance.
- Romance?
- É.
- Teu romance com a Rita?
- Não.
- Que romance?
- É o outro jeito de se chamar “livro de história”, ”livro de ficção”, essas coisas.
- Ahhhhh tá.
- É muita coisa, muita página, muita história. O cérebro humano é incapaz de relembrar todas as informações, senão explodiria. Em livro grande assim a gente só lembra algumas partes e eu lembro as partes importantes, por isso tô te dando de presente.
- Mas eu também não vou lembrar.
- Não mesmo. Por isso o pessoal nega livro de prosa e aceita de poema.
- Quê? O que é prosa?
- Prosa é o que tem nesse livro aí, um monte de parágrafo. Sabe o que é parágrafo, né?
- Aprendi na escola.
- Legal. Um monte de parágrafo, texto de história mesmo, sabe?
- Sei sim.
- Pois é. É muita coisa, o cérebro não relembra tudo, mas grava as melhores partes. Dificilmente a maioria das pessoas volta a ler prosa, mas facilmente volta a ler poema. Sabe o que é poema, né?
- Claaaaro.
- Pois é. Poema a gente volta, poema a gente realmente grava, mas poema a gente gosta de guardar e de reler e reler e ler de novo outra vez e mais um pouco.
- Então eu posso ficar com esse livro?
- Claro.
- A Rita não vai ficar com raiva?
- Eu não sei quem é Rita, mas acho que ela adoraria que tu ficasses com ele.
- Então eu vou ficar.
- Fica. – Molhei o bico quando o menino enfiou o livro na cintura e escondeu com a camisa surrada de um deputado qualquer das eleições de nove anos atrás. – Sabe com o que eu trabalho, moleque?
- Com o quê?
- Eu escrevo prosa.
- Rárárárárárá.
- Por que tá rindo?
- Tu disseste que ninguém lê essa tal de prosa, só o poema.
- Verdade. Por isso eu demorei três meses pra voltar aqui: tava sem grana até pra beber.
- Rárárárárárá.
Abanei as mãos.
- Eu tô fadado a um negócio ruim, meu chapa. O pessoal gosta mesmo é de poema, não de prosa. Pra conquistar com prosa, cê tem que ter prestígio, credibilidade e ser levado a sério. Eu só bebo, e isso nem tanto ultimamente. Conheço um camarada que escreve poema, ele é bom demais no que faz.
- Ele é rico?
- Não, mas com certeza tem mais dinheiro pra beber do que eu.
- E aí?
- E aí que ele é reconhecido. Poema é mais legal, moleque. Se tu não escreves poema ou não bancas o intelectual que escreve prosa, tu não és nada.
- Tu não parece intelectual.
- Eu sei.
- Tu nem fala umas palavras difícil.
- Acordar.
- Quê?
- Acordar é uma palavra difícil.
- Rárárárárárá. Se tu fosse inteligente, tu escrevia poema e tinha mais dinheiro pra beber. Rárárárárá.
- É verdade.
- Tu só parece que tá é com sono. Rárárárárárá.
- É verdade.   
- Rárárárárárá. Prosa não dá em nada. Rárárárárárá.
- É verdade, camarada.
Puxo o moleque pela manga da camisa e tiro o livro da cintura dele, coloco na mesa e bebo mais um pouco.
- Por que tu fez isso?
- Foda-se. Eu vou te trazer um livro de poema.
- Mas o livro era meu.
- Não é mais, tu riste da prosa, moleque. Ninguém ri da prosa perto de mim.
- Mas tu é um fodido.
- Fodido é tu, cheira cola do caralho.
Flavinho me mostra o dedo do meio.
- Semana que vem eu trago um livro de poema.
- Tá bom.
- Tá beleza.
- Tu não quer é se livrar da Rita, né?
- Quem é Rita?
- A Rita. – Flavinho pega o livro de mim com mãos sorrateiras e abre na contracapa. Aponta o dedo pra um espaço que tem algo escrito, ou talvez não. Aproximo a cara, balanço a cabeça negativamente.
- Onde?
- Aqui, seu dá o cu!!!!!
- Olha o respeito, moleque.
- Ninguém te respeita!!
- Tô falando sobre quem dá o cu.
- Aquiiiiiiiii! A Riiiiiita! Aquiiiii! – Esfrega o indicador pelo papel.
Pego o livro de volta e enfio na minha cintura.
- Semana que vem eu trago.
- Vai ter dinheiro pra voltar?
- Claro que vou.
- EU DUVIDO.
- Vou escrever poema.
- VAI É SE FODER.
- Dê ao público o que ele quer.
- RÁRÁRÁRÁRÁ.
- Rima e compasso.
- AH TÁ.
- Sensibilidade e existencialismo.
- RÁRÁRÁRÁRÁ.
- Ê, moleque, vou escrever poema. Vai todo mundo olhar pra mim.
O pai de Flavinho o chama, os dois acenam para mim e descem a Senador Lemos.
Uma semana depois, estou de volta com o livro do pirralho.
- Quem é Lem... Le... Leminique?
- Leminski. Paulo Leminski.
- Ahhh tá. Deixa eu ver. – Agarra o livro, abre na contracapa e começa de novo: – Rárárárárárárárá.
- Que foi, moleque?
- “...não te perde por aí. Te amo, Maiara”. Quem é Maiara?
- Ih, porra, Maiara?
- Aqui escrito.
- Onde?
- Aquiiiiiiii.
- Quem?
- Aquiiiiii escrito, a dedicatória. M-A-I-A-R-A.
- Ihhhh, caralho. – Encho o copo e molho a garganta. – Pirralho maluco.   


9 de outubro de 2017

A goteira da Carla

Fonte: http://fotoemperspectiva.blogspot.com.br/2014/03/com-quantos-barcos-se-faz-um-cirio.html



Gonçalves desce do carro com a barriga ainda cheia, tão entupida com a maniçoba da dona Dulce que mal consegue manter o cinto afivelado (na verdade, precisou desafrouchá-lo para que pudesse caber na cintura).
Tem chovido tão forte nos últimos dias que sempre escuta a Carla e o Antônio do apartamento de cima gritando para pegar mais um balde, porque o “caralho da goteira do quarto voltou de novo”. Eles gritam a tarde inteira por causa daquelas goteiras e Gonçalves dá graças a Deus por morar no segundo andar, não no terceiro.
Ele sabe que consegue lidar com a gritaria dos vizinhos nos dias de folga, mas jamais conseguiria dormir em paz tendo que correr com balde pra lá e pra cá, espremer pano encharcado de água e outras coisas mais se tivesse uma goteira em cima do quarto.
Certo, vinte e dois anos na polícia te proporcionam alguns trunfos na vida. Por exemplo, Gonçalves não entende como essa geração de babacas tem se tornado tão babaca com suas doencinhas de frescos e sintomas de gente doida. Agora todo mundo é triste e depressivo e você nem pode mais ligar a merda da Fátima Bernardes pela manhã, enquanto preenche toda a papelada do assassinato da sexta-feira, que tem uma psicóloga de merda falando a respeito dos probleminhas de cabeça que sentem as madames que ela trata. Gonçalves nem podia mais fazer uma piadinha que todos chorariam, reivindicariam e diriam que o problema do Brasil é gente como você, quando na verdade o problema do Brasil eram dois:
Cintos apertados e plantões aos Sábados.
Gonçalves desce do carro, respira fundo e aliviado quando a pança cai sobre o cinto preso à calça, porque esteve a viagem inteira se sentindo feito sardinha na lata com o cinto – o outro, o de segurança – sobre o corpo, mais especificamente sobre a barriga, apertando toda a maniçoba da dona Dulce. Com os sapatos agora para fora, ele tira a caixinha de palitos de dente do bolso e começa a palitar aquilo que chama de arcada dentária impecável, 670 reais parcelados de três vezes porque senão a banca quebra e a pensão do pirralho de dezesseis anos te joga em cana junto com aqueles vermes que vão adorar saber quem você é. Então ele palita com cuidado as sobras de maniva presas ali entre os dentes.
Ele respira fundo e olha para a chuva caindo lá fora. Na verdade, é um chuvisco chato que não decide se engrossa ou se desiste de cair e fica nessa ladainha escrota igual a ladainha que a Carla e o Antônio do apartamento de cima ficam sempre que ela chega bêbada do trabalho ou das escapadas que dá, e ele insiste, horas mais tarde e na porra do meio da madrugada, pra ela liberar o rabinho e ela dá uma de difícil no início, mas depois libera e depois diz que tá doendo e xinga o filho da puta de bruto do caralho e diz que não quer mais e depois se dobra à insistência dele e diz que “tá, tá bom, enfia logo, mas só a cabeça” e ele enfia, mas não enfia só a cabeça, ele enfia tudo e ela volta a reclamar de novo e eles ficam nessa merda a madrugada inteira e Gonçalves só quer dormir, porque tem que estar às sete da manhã na seccional do Comércio.    
E eles não te pagam abono por aturar a Carla e o Antônio, por isso Gonçalves prefere quando são apenas as goteiras.
O chuvisco chato continua a cair, alguém o oferece um guarda-chuvas, mas ele nega, porque sabe que essa merda de guarda-chuvas é pra viado. Ou você sai na chuva pra molhar o cabelinho ou não sai, porque aí ele vai desfazer.
- Gonçalves – diz o Ricardo, ao vir correndo no meio do chuvisco até seu lado. Ele balança o cabelo pra tirar o acúmulo de água e acende um cigarro. – Porra, Gonçalves, por que tu demoraste?
- Eu tava no Outeiro na casa da minha mãe.
- A maniçoba já tá pronta?
- E tá uma delícia, tu tens é que provar aquela merda.
- Como eu queria, talvez eu dê uma volta amanhã.
- Amanhã? – Gonçalves continua palitando os dentes enquanto olha o céu escuro, para as luzes fortes que os postes das docas cospem e paras as sirenes de um lado pro outro, tanto aquelas em terra quanto aquelas na água. – Amanhã a gente vai é atolado com essa porra toda. Não vai dar pra encher o bucho em paz esse ano.
- Que desgraça, Gonçalves. Que desgraça.
Então vem todo mundo em cima de Gonçalves, o obrigam a colocar luvas e até dão uma máscara a ele. O gorducho sai na chuva como um homem, não como esses frescos hipocondríacos que pegam gripe por nada. Mas você precisa da máscara porque “o cheiro tá insuportável, Gonçalves”, é o que Ricardo diz. Os dois caminham por uns vinte metros até a zona onde estão estocando a porra toda: passam por ambulâncias, passam por uma dezena de viaturas da PM, passam por três caminhões do corpo de bombeiros e passam pelas vans carcomidas que conseguiram enviar lá do Renato Chaves.
Escuta alguém por ali dizer que:
- Olha só, vão precisar de mais ferro velho pra carregar tudo.
Gonçalves nem sequer viu a situação ainda, mas com certeza deve ser verdade, a julgar pela levíssima tensão no olhar do Ricardo e olha que o Ricardo não era lá uma pessoa muito fácil de se impressionar. O rapaz nem tinha quarenta, devia estar há uns quinze anos por ali, mas diziam que já tinha visto coisas nojentas. No caso da menininha do Chaco, três anos atrás, o Ricardo ainda mastigava uns salgadinhos entre os dentes depois de terem saído da cena do crime. Aquela foi a primeira vez que Gonçalves vomitara no trabalho, porque a merda dos cabelos loirinhos da menininha ainda estava melecada para fora do liquidificador, girando como fitinha colorida em dia de arrastão na praça da República.
Aquela merda de cabelo ainda girava, girava, girava, girava e girava quando arrombaram a porta.
Enquanto Goncalves punha tudo para fora, o danado do Ricardo mastigava os salgadinhos, aqueles amarelados que estalam quando você mastiga e que ficam presos nos dentes e no céu da boca. Às vezes, achava que o pobre do Ricardo possuía algum grau de autismo, porque só o Senhor sabia o quanto o rapaz conseguia manter a sanidade e mastigando salgadinho em meio a todo o hospício sangrento que eram as ruas de Belém.
- Um dia de folga e tu ficaste ilhado do mundo, foi? – Perguntou Ricardo enquanto caminhavam pela chuva e tentava não molhar a ponta acesa do cigarro com os chuviscos.
- Não tem televisão no sítio.
- Eu te mandei mensagem no zap.
- Eu não fico com o nariz nessa porra, não.
- Mas te mandei ontem, mandei as fotos daquela mocinha que te falei.
- Patrícia?
- Bianca, aquela da Riachuelo.
- E aí, como é que foi?
- Um rabo do caralho, Gonçalvão. Um rabo do caralho. – E faz um “ok” com os dedos.
A máscara de Ricardo estava pendurada no pescoço, ele estica o elástico e a coloca de volta sobre a boca e o nariz, dá um peteleco no cigarro e põe as luvas de volta.   
Eles passam com certa dificuldade pelo amontoado que os jornalistas formam, parecem moscas em volta da merda, falando, gritando, especulando, colocando gravadores e microfones na cara de quem julgavam mais importante por ali ou quem quer que detivesse mais informações; sempre correndo atrás das notícias pra encher a curiosidade do público que agora estava lá fora, protegido em suas casas daquele chuvisquinho de merda que nem chuva era, com medo de contrair gripe, cirrose ou depressão.
Gonçalves e Ricardo passam por eles como dois estranhos invisíveis, sem nem sequer serem notados, porque os distintivos da PM não estão suspensos no pescoço. Somente após cruzarem as fitas amarelas e entrarem na área restrita ao pessoal autorizado que colocam as identificações. Caminham por mais trinta metros e Gonçalves diminui os passos, a respiração exigindo um pouco mais de fôlego e os joelhos endurecendo – a noite está fria e isso com certeza vai foder com suas articulações dentro de algumas horas.
- Tu não disseste que ia comprar uma televisão pro sítio?
- Eu ia, mas aí a Regina me pentelhou com a história da pensão, eu disse pra ela que quando fechasse três meses eu ia dar tudo. Só que tu sabes como é, né? – Ele ainda mastigava o palito entre os dentes e o gosto da maniçoba ainda estava na boca. Esquecera de escová-los antes de sair e agora só pensava nos 670 reais parcelados de três vezes que não queria jogar no ralo. – O problema todo é que tem que ser uma dessas televisões boas.
- Agora é tudo HD, né?
- É, frescura do caralho. Mas como é que foi o negócio aí?
- Deu em tudo quanto foi lugar, “diz que” foi até plantão nacional.
- William Bonner e tudo, meu filho?
- Num é pra tanto. Acha que o cara vai noticiar índio se afogando? Que nada.
Então os dois riram.
Quando finalmente chegaram ao ponto onde os estavam corpos, Goncalves tirou um caderno pequeno e uma caneta do bolso do paletó. Foi só aí que o chuvisco começou a irritá-lo de verdade, porque a folha molhava e se passasse a ponta da caneta para escrever, rasgaria no mesmo instante. Ele bufou e tentou proteger o caderninho.
- É o seguinte – Ricardo começou, colocando as mãos na cintura –, o problema é que isso daqui tá uma bagunça e é terra de ninguém. Mandaram gente até da Sacramenta pra cá, tá todo mundo querendo enfiar o dedo. Te falei: tragédia nacional.
- O que foi que aconteceu?
- Tu tens é que logo comprar essa Tv HD 3D 360º no sítio, Gonçalves.
Os dois riram de novo.
Diante deles, além do vai e vem de todo o pessoal de sempre e além de todos os voluntários envolvidos, as luzes fortes das docas iluminavam cada um dos corpos dispostos no chão. Distribuíram-se em três fileiras: a primeira, da esquerda de Goncalves, estavam os corpos dos homens, no meio, os corpos das mulheres e a terceira era respectiva às crianças. A fileira da direita parecia infinita, como se a fúria divina houvesse renascido dos tempos de Moisés para devorar uma infinidade de pequeninas almas. Quase não havia mais tanta lona preta para colocar sobre os corpinhos. Ricardo dizia que o pessoal dos bombeiros precisou buscar mais lonas para cobrir as vítimas, porque a cada hora de busca chegavam mais corpos.
Os barcos da Marinha e pequenas lanchas zanzavam feito loucos sobre o rio Guamá, trazendo mais corpos e buscando informações sobre qual área precisaria ainda ser coberta.
E os acréscimos às fileiras não paravam de chegar.
- Sim, porra. O que foi que aconteceu? – Goncalves repetiu a pergunta.
Perdido, Ricardo olhava para os corpos como se estivesse cagando em casa e olhando para parede, absorto. Devia estar num daqueles transes de seu autismo não diagnosticado.
Aí Gonçalves estalou o dedo e o mongoloide continuou:
- Disseram que o cara que pilotava o barco andou bebendo o percurso inteiro, mas ninguém sabe se é verdade, acho que vai ser meio difícil encontrar as latinhas agora. – Ele riu um pouquinho e o parceiro só se esforçou para manter-se sério. – Já eram umas nove e meia da manhã quando o barco acelerou e cruzou na frente de outros dois. O pessoal diz que ele foi pra frente de todo mundo, tipo esses tchongas de moto atravessando o BRT na Almirante. Aí tu sabes o que acontece quando passa o ônibus, né?
- Só que não era um ônibus, Ricardo.
- Não, eram dois barcos menores. Um com trinta e sete pessoas, além da tripulação de cinco. O outro era um pouco maior, dizem que umas sessenta pessoas tavam lá dentro, sessenta ou mais.
- E o barco do idiota?
- Era um barco grande, Gonçalves. Umas cem pessoas no mínimo. Virou na hora.
- Puta merda.
Gonçalves anotou qualquer coisa no caderninho e reclamou três vezes seguidas quando os chuviscos caíram sobre a folha.
Então caminharam por entre os corpos. Se você deixasse uma panela com o resto da sopa em cima do fogão por cinco dias dentro de uma casa fechada e voltasse ao sexto, saberia como é o cheiro de carne podre e aguada que emanava daqueles corpos.  Ainda assim, Gonçalves sabia que se pudesse comer um salgadinho daqueles crocantes que grudam nos dentes e no céu da boca, com certeza o animal do Ricardo estaria comendo. Havia ali mesmo nas docas um hangar inteiro com familiares e gente de toda a espécie procurando informações, inclusive as larvas menores das moscas que eram os jornalistas amontoados e desesperados por quaisquer informações.
Não passava sequer das oito da noite e o chuvisco resolveu engrossar, finalmente tornando-se chuva de dar gosto. Golçalves entocou o caderno e resolveu que aquela merda tomaria o mês inteiro de sua paciência e teria de fazer as coisas do jeito antigo, sem anotar os detalhes e sem sacrificar o caderninho na chuva.
Enquanto margeavam as fileiras e corriam para ver um grupo trazendo mais dois corpos recém-encontrados, ambos de duas mulheres, Gonçalves parou e apoiou-se nos joelhos, o coração martelando e o cinto apertado. A maniçoba da dona Dulce além de deliciosa, caíra pesada, estacionada de maneira estranha no estômago. Talvez fosse o charque gorduroso ou aquele toucinho dos porcos criados no próprio sítio.
- Tudo bem aí, Gonçalves? – Ricardo perguntou, distraído, ao observar os dois novos corpos com a frieza perdida no olhar.
- É o colesterol.
- Vish. Toma Sinvastatina, é ótimo pra isso. Eu tomei e parei de ficar tonto em uma semana.  
- Precisa de receita?
- Que nada, rapaz.
Gonçalves só concordou. Quando recuperou o fôlego, um raio piscou no céu e eles precisaram se abrigar em uma área coberta. Aí veio o toró e não tardou até alguém dos bombeiros avisar a todo mundo que precisariam encerrar as buscas em função da chuva, o que era de se espantar, já que eles nunca mantinham as buscas em andamento após as seis e meia da tarde. Como a tragédia fora anunciada até em rede nacional, então provavelmente o governador em pessoa fizera um esforcinho para obrigar todo mundo a continuar.
O problema é que alguém lá em cima não queria que continuassem, então que caísse o toró e que amanhã os fiéis tivessem a quem rezar e peregrinar de verdade.
Aí a chuva continuou, Gonçalves organizou tudo mentalmente e por onde começaria a perguntar: os donos da embarcação, o pessoal que liberou o alvará de segurança, os parentes do comandante, as testemunhas sobreviventes...
Gente pra caralho.
Respirou fundo. Toda a porra do fim de semana fora embora, logo agora que tinha trocado de escala com o Pedro, logo agora que só queria um instante sossegado para se embalar na rede e cair de boca na maniçoba da dona Dulce como costumava cair de boca na vizinha de cima, a Carla, geralmente nos dias que o pamonha do marido dela não tava ouvindo brega de corno ou correndo pra cima e pra baixo atrás de balde pra aguentar as goteiras do quarto.
Certa vez, Gonçalves mandava fundo em cima dela quando começou a chover igual chovia aquela noite. Aí a Carla ficou tão preocupada com a goteiras e com os sons dos passos de Antônio que o Gonçalves nem mais conseguiu entrar direito. Tanta água caindo do céu e os lugares certos nada molhados.
Ele não sabia o porquê, mas quanto mais olhava para a chuva, mais lembrava da goteira da Carla. Talvez em função do fim de semana arruinado, porque, se tudo tivesse dado certo, voltaria para casa depois do almoço no sítio e encontraria a vizinha. O Antônio, marido dela, morto, coitado, acabado por causa da corda.
E havia a maniçoba da dona Dulce.
Cacete.  
- Mas vem cá, me diz uma coisa. – Gonçalves cutucou Ricardo.
- Que foi?
- E o barco que tava a Nazinha?
- O que que tem?
- Ele ficou bem? A santinha tá bem?
- Ah, esse daí tava afastado. Não aconteceu nada com ela.
- Ainda bem, né? Isso que importa. Graças a Deus!
- E num é, rapaz?! – Ricardo suspirou aliviado – Graças a Deus.


8 de outubro de 2017

Sundae de culpa com cereja de angústia




Integridade latente aos demônios que são duques em todas estas terras do meu coração. Integridade em cada ato bondoso, em cada sacrifício e em cada doação. Integridade, integridade:
eu fui íntegro,
sobretudo quando plantei a maldade,
sobretudo quando quis ser perverso.
Eu fui íntegro ao límpido, eu fui integro ao torpe, com desmedidos prazeres e desmedidas intenções. Disse o que o não acreditava, berrei o que não pensava; defendi com unhas e dentes a máscara venenosa com vis palavras ditas da boca para fora, mas não menos condenáveis por isso – eu disse e repeti com santa convicção, falsidade na raiz, inevitável no fruto.
Diante de Deus raivoso e do Diabo orgulhoso, nesta mesa de jantar onde meus pecados são servidos a mim como mera entrada para a sobremesa derradeira, eu seguro garfo e faca:
corto carne,
a carne crua das minhas memórias
e a mastigo com sangue,
aguada, fria,
exatamente como a vingança que um dia tanto quis
emplacar,
mas inexperiente, bobo e afoito, equivocadamente não soube
aplicar.
- O que tens a me dizer, meu filho? – Deus faz a derradeira pergunta. Sua voz soa como trovões e trombetas quando abre a boca.
Deus tem o rosto de John.
- Gosto da carne malpassada.
O Diabo ri ao meu lado. Ele passa a mão na minha coxa e balança a cabeça como forma de conforto.
Hoje é Ele o meu advogado.
O Diabo tem a voz do Rei.
- Essa carne é a carne do teu corpo, meu filho. A última que te sobraste, tu sabias? – Deus me questiona.
- Ele me avisou. – Aponto para o Diabo.
- Eu tenho visitado o menino todas as noites, meu pai. – Ele começa a falar com a voz suave e mansa, cada som bem orquestrado, cada pausa fonética e modo de articulação bem proferidos, cada fim de sentença milimetricamente bem articulado, os sons deslizando por entre os lábios como o veludo a beijar o corpo virgem de uma jovem ruiva.
- O que tens a dizer em tua própria defesa, menino? – Deus pergunta. Diante de mim, Deus tem as linhas do rosto bem formadas, cabelo bem aparado e penteado para trás, com gel brilhante e olhos penetrantes. Deus tem a mesma cara de WAYNE, John.
- Eu queria dizer que admito o que fiz, mas não sou o que fui.
- Ele quer dizer, meu pai – o Diabo aperta meu joelho e me acaricia a virilha. Se Deus era John Wayne, o Diabo era Elvis vestido de alaúde –, que se arrepende do que fez, mas não fez tudo. O que significa que nem tudo feito por ele foi de fato feito, portanto nem todo arrependimento merece ser consumido.
- Ludibria-me com tuas palavras, Lúcifer?
- Explico-te o que é verdade, pai.
- O Senhor é inteligente, sabe o que Ele está querendo dizer. – Retiro a mão do Diabo que já me acaricia o meio das pernas. – E sabe o que sinto. Arrependo-me pelo que fiz, não pelo que não sou.
- Das coisas que não foste, pequeno: por isso vieste até mim?
- Por isso venho a ti todas as noites, Senhor.
- Secretamente, percebo eu.
- Ainda assim, venho.
- O que é então que desejas?
- Penitência pelos meus erros e justiça pelo silêncio.
- Silêncio? Que silêncio?
O Diabo ri e dedilha seu instrumento musical que não emite som algum. De onde havia surgido o instrumento? Eu não sabia e Deus tampouco, nem sequer pareceu se importar.  
- Pelo silêncio que fazem as responsabilidades que não foram minhas, pelo silêncio que morreu e ninguém escutou.
- Compreendo.
- Não compreendeu, não. – O Diabo se intromete. O topete de Elvis balançando, porém nunca saindo do lugar. – O garotinho só quer dizer que deseja que as coisas que ninguém testemunhou sejam testemunhadas.
- Você, filho mortal, não tem o direito de fazer exigências nesta mesa.
- Protesto, pai. – O Diabo continua, erguendo o indicador em riste. – Ele só quer que a verdade venha à tona.
- Que verdade, Estrela da Manhã?
- A verdade de que ele foi maldoso, sujo e que aceita isso.
- Porém...?
- Porém que saibam que nunca fui só isso. – Interrompo o turno do Diabo. – Que saibam que fui mais íntegro na bondade, que fui mais vezes bondoso e benevolente do que as poucas vezes que fui fiel à minha maldade, Senhor.
- Mas disso eu sei, pequeno.
- Preciso que todos saibam!
- É, é o que ele precisa, pai. – Confirma o Diabo.
- Mas isto é querer demais. Que ninguém saiba a verdade ou que ninguém saiba que foste mais bondoso que maldoso, mesmo sendo maldoso por intenção: esta é a tua penitência, filho.
- O quê? – O Diabo coça o queixo protuberante de Elvis Presley.
- É, o quê?
- O que todos de ti pensam, é isso o que te assolas? – Deus rebate com outra pergunta.
- O que eu não sou e o eu que não fui: isso é o que me assola.
- E o que tu assumes?
- Assumo o que fiz.
- E disso te arrependes?
- O Senhor sabe que sim.
- O que tu queres, justiça?
- Eu quero a verdade.
- Eu sei a verdade, filho. Não te bastas?
- Mas que todos também saibam! Que todos parem de me conden...
- Condenação perpétua e alheia pela verdade que ninguém saberá, ainda não entendeste? Essa é a tua penitência, filho pequeno.
- Já são penitências demais, hein? – Elvis batuca os dedos sobre a mesa, impaciente.
- E a minha angústia?
- E a angústia dele, tadinho? – Elvis está quase para roer as unhas.
John Wayne sorri e aponta ao meu prato.
- Tua carne é teu castigo. Tua angústia e apedrejamento, a penitência.
- Outra? De novo. – Finge desespero. – E a recompensa? – Lança o Diabo, curioso.
- A recompensa sou Eu, detendo a verdade que ninguém vê. A recompensa sou Eu, acolhendo o silêncio dele.
- O que isso valerá ao garoto, pai?
- Valerá que comigo está a verdade.
- O que me resta no fim, Senhor?
- Um prato de comida. – Deus escancara em leve escárnio os dentes, o sorriso irresistível de John Wayne. – E tua consciência de que somente Eu guardo tua inocência.
- De que me adianta tudo isso?
- De que adianta a ele tudo isso, pai?
Deus dá outra risadinha e sinaliza para que os garçons retirem meu prato. Um deles traz a sobremesa:
- Sundae de culpa com cereja de angústia. – Sussurra-me o garçom, que é o garçom, mas ao mesmo tempo não é, do mesmo modo que Deus não é John Wayne e o Diabo não é Elvis. Por fora, entretanto, todos eles o são, assim como por fora e para tantos acusadores, igualmente sou o que de mim querem ver.
O garçom, sendo o que não é, agora tem um rosto antigo e familiar de mulher, cabelos negros, compridos e ondulados caindo pelas costas e uma bunda gigante.
Oferece ele (ou ela?) o mesmo ao Diabo, que aceita de bom grado e começa a comer, lamber e sugar o Sundae como um esfomeado.
O garçom caminha até Deus e senta no colo dele. John Wayne haverá sempre de conseguir o que quer, afinal.
- Você nunca vence de John Wayne, menino. – Confessa-me o Diabo, enquanto segura minha nuca e empurra-me o rosto contra o Sundae, obrigando-me a tomá-lo.
John Wayne acaricia os cabelos do garçom e o garçom acaricia a face de Deus.
- Justiça divina não existe, menino. – Sussurra-me o Diabo, enquanto John Wayne e o garçom com cara de antigas-amantes-de-Junho olham-me insanos, eufóricos, rindo debochados, rindo vitoriosos. – Justiça divina nunca existiu aos culpados.
Assim finaliza o Diabo, como se melodiasse, aveludado, charmoso e mal intencionado “love me, love me tender” nos ouvidos de Priscilla Presley.
E Priscilla sou eu com a cara mergulhada no sundae.
John Wayne agora beija o garçom. Deus ri enquanto aquela bunda gigante esfrega-se em seu colo e ofusca toda a verdade que ficou com Ele – e que a ninguém mais haverá de importar.
E Elvis sorri. E Elvis afunda minha cara no Sundae, rindo e se deliciando por perder o julgamento perante seu pai, mas Elvis não liga.
Elvis empurra meu rosto.
Elvis lambuza minha cara.
Para Elvis, eu sou Priscilla.
- Você perdeu de novo, Felipão. Você perdeu de novo. – Ele diz.
Elvis tem as mãos entre as minhas pernas agora.




   

  

7 de outubro de 2017

Canários brasileiros têm problemas respiratórios




Camilla corre para a livraria – pelo menos é assim que se sente: correndo desesperada na direção do primeiro lugar de conforto que encontra. O filme fora um saco, um misto de explosões e dublagens estranhas e metalizadas demais e um bando de gente ao lado da outra, acotovelada entre caixas de pipocas e copos imensos de refrigerantes, rindo do que parecia ser a mesma piada que também utilizaram nos quatro filmes anteriores de robôs gigantes brigando por... por... por...
- ...pela Terra de novo? – Ela perguntara ao Caio, num sussurro, inclinando-se perto do ouvido dele e notando a tensão que brevemente tomou o cara pelos braços.
- Ahn?
Camilla esforçou-se para não bufar.
- Estão tentando destruir a Terra de novo? É contra isso que eles estão lutando?
- Sim, mas dessa vez tudo tem a ver com aquela espada do início, que diziam ser o cajado do mago...
E o Caio pôs-se a falar baixinho em seu ouvido como se ela fosse uma idiota e não houvesse prestado atenção naquele blockbuster de verão que era o único que ainda tinha algum lugar para sentar. Ele falou, falou, falou e falou, ele precisava falar porque você é uma garota e com certeza não manja nada de robôs gigantes ou de filmes que não assistiu anteriormente, como se filmes de robôs gigantes com takes dramáticos contra o pôr do Sol exigissem qualquer esforço mental para serem compreendidos.
Caio continuou com sua ladainha explicativa para impressioná-la, falando cada vez mais perto da orelha dela. Camilla então endireitou-se no banco e forçou um sorriso de empolgação, soltou os cabelos de forma a caírem sobre a orelha direita, uma cortina de ferro contra o hálito de pipoca e manteiga do Caio.
Aí o filme terminou e ela deu graças a Deus, compreendendo, é claro, que um gancho cafona fora deixado para uma futura produção. Mas ela aguentou firme e até achou engraçadinho o robô amarelo que imitava carros de sertanejos.
Saindo da sessão, ela o arrasta à livraria com uma apreensão quase desesperada de alguém que chega em casa maluca para tirar as sapatilhas. Eles estão de mãos dadas. Camilla gosta da textura das palmas de Caio, sente algum conforto que não sabe muito bem qualificar, talvez seja a leveza com que a toca – certamente a leveza.
Ela comenta sobre o primeiro título que a atrai, não aqueles que estavam sobre a vitrine de exibição, mas outro que escondido por entre mil títulos em outra estante brilhava.
- Tu sabias que alguns canários brasileiros têm problemas respiratórios? – Perguntou a ele, enquanto folheava o volume.
- Sério? Não, não. Que legal.
- É. – Ela assentiu e fechou o livro, sorrindo meio a contragosto. – Acha legal?
- O quê?
- Isso. – Ergueu o romance diante dele para que desse uma olhada.
Caio pegou-o entre as mãos e olhou a capa, então virou o livro de costas e fingiu ler os trechos de trás, mas ao constatar, confuso, que não eram a sinopse, voltou a admirar a capa.
- Sim, sim. Eu acho legal, bem legal. Gostei desse.
- É, eu também. A capa é bacana, né?
- Ah, muito legal!
Claro que ele se empolgara com a capa, qualquer um se empolgaria com a capa. O interesse dele, no entanto, visivelmente terminava aí.
Duas estantes e cinco livros depois, ela arriscou olhar para trás e viu o olhar de Caio perdido em qualquer outro ponto, na direção do caixa ou dos artigos eletrônicos.
- Eu tive asma quando era criança – começou ela, enquanto folheava uma das mil biografias não autorizadas sobre o Rei. – Foi uma fase meio complicada, as crises eram fortes e faltei a escola por três meses inteiros.
- Que barra. E depois?
- Aí passou. Que merda, né?
- Sim. – Caio só balançava a cabeça. Se pudesse suspirar, louco como um passarinho na gaiola, suspiraria.
- Deve ser uma merda ser um passarinho com problema respiratório.
- Porra, deve mesmo.
Outra resposta automática e os canários asmáticos pareciam asfixiados demais, estivessem ou não em suas zonas de conforto.
Camilla se vira na ponta dos pés e põe as mãos nos ombros de Caio. Caio tem mãos macias e ombros firmes, ela gosta disso.
- O que tu queres fazer agora? – É ele quem pergunta, quase ansioso.
- Fiquei de te mostrar os discos dos Stones que falei.
- Porra, os Stones. Vamo lá então.
- Vamos, sim.
Camilla fica na ponta dos pés e o beija.
Quando saem da livraria, ela é capaz de ver o alívio no rosto dele, o alívio de homens enclausurados por anos em cadeias que os consomem, dilaceram e entediam. Caio estivera o tempo inteiro entediado e aquilo não saiu da cabeça de Camilla pelo resto da noite, porque ele também pareceu entediado quando ela o mostrou sua coleção dos Stones e tudo o que ele conseguiu comentar foram coisas superficiais demais que sempre levavam o assunto até os Beatles.
Camilla também gostava dos Beatles, mas sabia falar sobre outras coisas também ou pelo menos se esforçava a conversar ou pelo menos se esforçava a conhecer.
Caio não, Caio parecia prático ao extremo e sempre, sempre terminava nos Beatles.
Ela mostrou os discos do Neil Young, enquanto Caio dizia que o John era seu favorito.
Ela forçou um sorriso e o beijou. Nesse momento, cantarolou Imagine e ele pelo menos continuou a letra. Aí voltaram a se beijar e o beijo transformou-se em mãos nas pernas, depois nas costas e em seguida o braço inteiro sob a camisa. Na sala mesmo ela pulou sobre o colo dele enquanto o Caio enchia suas mãos macias com os seios medianos dela. Camisa e sutiã para o lado, calças abaixo, calcinha e cueca no chão e ali mesmo na sala ela pulou outra vez no colo dele, mas agora nua e ofegante como se nunca na infância houvesse quase morrido pela asma.
Então ela descobriu que todo o tédio de Caio desaparecera porque aquele pau gigantesco que ele tinha entre as pernas estava sólido demais, empolgado demais, interessado demais. O que a surpreendera, porque o jeito que a tocara a noite inteira dava a ele uma espécie de flacidez existencial, o que quer que isso significasse. Homens com mãos como aquelas não pareciam possuir paus tão duros e tão grandes assim, mas Caio possuía um desses e Camilla subiu e desceu sem se preocupar com asmas antigas ou passarinhos em livrarias.
Na manhã seguinte, ela voltaria a se incomodar com os suspiros entediados de Caio. Entretanto agora, respirando fundo e gemendo como se não houvesse gente nos apartamentos embaixo, ela quicou no pau de Caio sem se importar com o que ele achava sobre robôs gigantes, livrarias ou gente que transava na primeira noite, porque ele com certeza não ligaria nos próximos dias e a não ser que quisesse repetir a dose, sinceramente Camilla não se importava.
Só queria subir e descer naquele pau gigante e foi o que fez.
Foi o que fez.
Quando acordaram, antes de Camilla preparar o café da manhã, eles tomaram banho juntos e ela pôs aquela maravilha sna boca, quase não conseguindo engolir o restante depois da cabeça, mas com esforço toda a benção de Caio desceu garganta abaixo e mais uma vez ela se surpreendeu com as mãos dele, agora não mais leves, empurrando firme sua cabeça pelos cabelos molhados.
Ela engoliu tudo o que havia para ser engolido.
Tomaram café preto e Caio saiu pela porta apressado, dizendo que estava meio atrasado para o trabalho. Camilla desconfiava disso.
Ela prendeu os cabelos num rabo de cavalo e alimentou as plantas, pôs comida na tigela de Lupus, trocou de roupa e foi até a loja. Fez expediente até quatro da tarde e resolveu fechar cedo em plena sexta-feira. Então dirigiu até o shopping e voltou à livraria, onde reencontrou entre as estantes o volume d’O canário volta em Abril e sentou-se no sofá que havia ali, uma das poucas livrarias que ainda permitiam os bons e velhos costumes. Depois do primeiro capítulo, ela levantou e foi até o caixa, adquiriu o romance e pediu por um café. Sentou-se novamente e antes que retomasse a leitura, sentiu o celular vibrar.
Era o Caio. Havia uma mensagem dele na tela:
Adorei a noite, você também adorou? Bjs”.
Camilla mordiscou o canto dos lábios, divertidamente incrédula. Não respondeu e talvez nem o fizesse, a memória daquele olharzinho entediado ainda a latejar a mente.
Guardou o celular na bolsa e molhou os lábios com o café, finalmente suspirando, porém não o mesmo tipo de suspiro que Caio dera na noite anterior.
Outro tipo de suspiro.
O suspiro típico dos canários asmáticos que finalmente conseguem respirar.


5 de outubro de 2017

[Parte II] segundo, um frame






Ovacionada, você subiu ao palco.
As crianças te amam: batem palmas, pulam mesmo sentadas, gritam, vibram por seu nome. As crianças te amam e isso é coisa tão rara hoje em dia, conquistar o coração desses pequenos. Uma vez, no entanto, você me disse que conquistar as pessoas era fácil, difícil era saber lidar e mantê-las por perto. Difícil era saber lidar com e manter todo este amor vivo, amor que eu vi cada uma delas ter por você na primeira semana de estágio e meses depois ainda continuar quase o mesmo – só que um pouquinho maior, desses pouquinhos que mudam tudo.
Você então está no palco e faz uma reverência como uma atriz diante do rei ao apresentar o espetáculo que ele mesmo encomendou. Você tira o papel do bolso de trás da calça jeans azul que contrasta com aquele par de alpercatas pretas e cafoninhas que eu te disse pra comprar. Você comprou, três dias depois você comprou.
A nossa camisa do Star Wars fica grande em você – e, consequentemente, gigantesca em mim. É quarta-feira agora, então, por direito, é o seu dia de usá-la. Tem as mangas dobradinhas realçando os bracinhos finos e a tatuagem do Marvin-Androide-Paranoide que ainda tá cicatrizando. Então é nesse instante que você olha pra mim e, eu sei, deve ter sido difícil me identificar sentado no chão no meio de todos aqueles pirralhinhos e pirralhinhas que aos quatro anos de idade já têm quase o dobro da minha altura, mas é verdade: você olha para mim, no meio de tanta gente para olhar, é para mim que você olha com aquele último suspiro de hesitação, de nervosismo, como se não fosse boa no que faz ou como se não fosse melhor que eu em um número infinito de coisas.
Estou sorrindo daqui, vibrando com a Gabizinha ao meu lado e usando a máscara de raposa que eles me deram. Aí eu te faço um hang loose e balanço a cabeça positivamente, tão empolgado quanto a sua plateia original.
Você dá um bom dia, cumprimenta as professoras, coordenadoras e todas aquelas a quem você precisa cumprimentar – é isso ou não teremos poder monetário para as coxinhas todas as quintas à tarde. Depois cumprimenta os pais e por fim dá um alô à criançada.
Elas te aplaudem.
Elas te amam.
Você dá aquele sorrisinho nervoso outra vez, o aparelho transparente brilhando entre os dentes e o cabelo castanho claro crescendo a todo vapor (me perdoa, eu não vou te tratar como Jordana dessa vez, vou te tratar como
você).
E você está no palco, papel em punho e sorrisinho inseguro no rosto. Anuncia a leitura:
“é Pedro Bandeira”,
você diz,
“minha mãe sempre lia pra mim”.
As crianças entram num respeitoso e admirável estado de silêncio quando você começa a falar. É quando sua voz ressoa em todo aquele pequeno salão nos fundos da escolinha que o nervosismo aí dentro dissipa e a hesitação também.
As crianças te amam, aquele amor puro, verdadeiro e gratuito que você mencionou no dia em que optou por elas ao invés do estágio que te massacraria a alma em troca de uma conta numerosa.
“eu preciso disso pra mim”,
você disse,
“eu preciso, sabe?”.
E eu disse
“vá em frente”
e você foi.
Você está aqui agora: lendo Pedro Bandeira, sendo ovacionada por todos aqueles por quem optou lutar.
Eu espero que você saiba que há alguém por aqui orgulhoso de suas escolhas e de quem você se tornou.
Espero que daquele palco tenha sido minimamente possível enxergar que alguém tem te dito
“parabéns”
mesmo que silenciosamente, mesmo que na memória ou mesmo à distância.
As crianças e as professoras e as coordenadoras e as mães e os pais e os avós e eu: todos te aplaudem ao fim da leitura. Pedro Bandeira não sabe a visão de tamanha graça e tamanha generosidade que perdeu naquele momento.
Você esteve linda, tão linda.
E eu espero que saiba disso.